Sentado no parapeito do terraço, a mais de dez andares do solo, o sujeito olhava para o horizonte. Olhava como se esse fosse o último pôr-do-sol de sua vida. E provavelmente seria mesmo o último. Admirou uma vez mais a aliança de casamento dentro do estojo e a guardou no bolso do paletó novamente. Tomou outro gole de uísque no gargalo da garrafa. Viu que não estava só.
Uma mulher o observava da porta que dava acesso ao terraço. Assim que ele a viu, ela caminhou em sua direção e se debruçou no parapeito, ao seu lado. Olhava para os carros enfileirados enquanto a sinaleira regia a orquestra de ruídos metálicos. Tinha os cabelos negros, assim como os olhos, e um sorriso um tanto desconcertante. Voltou-se para o estranho e perguntou:
― Qual o teu motivo?
― O que é isso? Solidariedade suicida? – perguntou ele de volta, ríspido, com a voz levemente embargada pela bebida.
― Talvez. Se as pessoas se preocupassem mais umas com as outras, muitas vidas poderiam ser poupadas. Me dá um gole, conta a tua história que depois eu te conto o que me trouxe aqui.
Ele entregou a garrafa para ela e a estudou por um instante. Sabia que a conhecia, não se lembrava de onde, mas certamente a conhecia. Pegou um cigarro, o acendeu e, após a primeira tragada, tirou do bolso o estojo com a aliança e o abriu. Olhando para o anel, começou a falar:
― Nós quase tínhamos terminado o namoro, um namoro de cinco anos. Eu vinha cometendo erro em cima de erro, ela queria terminar e eu lutava para ao menos adiar o fim...
― Que erros? – ela perguntou, pegando o cigarro da mão dele. Depois de uma breve tragada, o devolveu.
― Tinha um amigo dela de quem eu tinha muito ciúmes. Então comecei a ameaçar o cara... enfim, o desgraçado contou pra ela, que ficou furiosa. Com toda razão, eu sei... mas o problema é que eu não conseguia me controlar, nunca fui bom com isso. E eu sentia que tava perdendo ela mesmo. Então, decidi começar a me consultar com psicólogo, psiquiatra, essas besteiras todas. Mas valia a pena. Passar um dia sem conseguir falar com ela era uma tortura, brigar, então, era terrível. Eu faria qualquer coisa por ela, nunca amei tanto alguém na minha vida.
Ele pediu a garrafa e tomou um largo gole. Parecia que as suas cordas vocais estavam amarradas em um nó cego. Com a voz embargada, continuou:
― Então, depois de uns meses, eu decidi pedir ela em casamento. Não tinha certeza se ela ia aceitar. Mesmo eu tendo melhorado muito com as crises de ciúmes, sempre escapava alguma coisa. Mas eu tinha esperanças. No fundo, eu sabia que ela me amava.
― E então? – perguntou a mulher, com uma fagulha de tristeza no olhar, como se já soubesse a resposta.
O sujeito travou por um instante: as palavras não vinham. Não vinham porque estavam entaladas em sua garganta, como se as letras fossem feitas de arame farpado. Seu rosto estava transfigurado pela dor. Precisava continuar o relato, suspirou e prosseguiu:
― Semana passada, fui buscar ela no trabalho, a gente ia sair pra jantar depois. Eu me atrasei um pouco, então ela saiu do serviço e foi se encontrar comigo no caminho. Vi ela no outro lado da rua, enquanto esperava o sinal fechar para atravessar. Ela demorou um pouco para notar, mas me viu também e acenou, sorrindo. Então... então... ouvi tiros. Três, quatro tiros. Olhei pra trás e vi um cara caído no chão, baleado, e outro fugindo. Quando voltei os olhos para a Beatriz, ela também tava no chão, do outro lado da rua. Corri em direção a ela, por um milagre não fui atropelado. Me ajoelhei junto dela, a tomei nos braços. Uma mancha de sangue, cada vez maior, se espalhava pela sua blusa. Ela olhou nos meus olhos e falou, com dificuldade: “Eu ia dizer sim”. Ela notou que eu não tinha entendido, e continuou: “Eu sabia do anel... a resposta é sim... eu te amo...” Eu não conseguia articular nenhuma palavra, apenas murmurava alguns “vai ficar tudo bem”, mas sabia que não ia ficar nada bem. Eu queria desaparecer, eu queria que o mundo acabasse... eu não queria ficar sozinho, sozinho com aquela dor que queimava o meu peito e a minha garganta. E, o pior de tudo, é que a bala deve ter passado do meu lado e acertado ela. Se eu estivesse um pouco mais para a direita, eu morreria no lugar dela. Eu daria tudo para ir no lugar dela. Tudo.
Por alguns minutos, ele ficou em silêncio, remoendo a dor da semana passada, que não o abandonava. Já não tinha mais lágrimas para derramar. Por fim, disse:
― Falei o meu motivo, agora é a tua vez.
Ela o encarou, séria, mas docilmente, e disse:
― Tu é o meu motivo.
― Por que tu se mataria por mim? Tu nem me conhece... – respondeu, surpreso.
― Mas eu não vou me matar.
A mulher virou-se e olhou para os carros, que continuavam a se estender em filas intermináveis. Suspirou fundo, e continuou:
― Não te lembra do meu rosto, Miguel?
Ele parou, pensativo, tentando se lembrar de quando a tinha visto antes. Escavou a memória e encontrou o seu rosto, figurando na cena da morte de Beatriz:
― Tu tava do lado dela... quando ela foi atingida... tu... como tu sabe o meu nome?
Miguel olhou no fundo dos olhos negros da mulher e enxergou um olhar antigo. Um olhar que já tinha visto infinitas histórias; que o abraçava, que o envolvia como o útero envolve um feto ou o cosmo envolve um planeta em formação. Era a Morte.
― Miguel, tu ainda pode mudar de ideia. Há tempo. Tu tem uma vida inteira pela frente... pensa nisso.
Aquilo era fantástico demais para a sua cabeça. Parou por um instante, pensando na causa de tal delírio, mas percebeu que – realidade ou não – ele tinha uma decisão a tomar. Na realidade, ele já tinha uma decisão tomada, bastava executá-la.
― Não... eu já me decidi. Uma vida inteira sem ela é tempo demais. Uma semana inteira já foi tempo demais.
Assim, Miguel olhou uma vez mais para o horizonte; o sol já mergulhara no rio. Subiu no parapeito e respirou fundo. A Morte subiu junto, o abraçou e escorou a cabeça em seu ombro.
Saltaram.